Não conseguia se lembrar de como havia acabado ali,
sentia-se minúsculo cercado por árvores gigantescas e prédios em ruínas que alcançavam
o céu e o encobriam. Vultos o cercavam como flashes de imagens e vídeos
distorcidos, cenas de seu passado, pessoas que amara e perdera em um misto de
sorrisos e agonia.
J deu um passo à frente, estendeu a mão para tocar o que
quer que fosse aquilo e em um piscar de olhos, acordou.
Respirou fundo, o suor frio escorrendo pela testa. Não
costumava ter muitos sonhos, mas aquele emprego por mais excitante que fosse,
estava conseguindo lhe render bons pesadelos. Endireitou-se no banco do carro,
passou as mãos frias no rosto e bocejou, K como de costume continuava quieto,
não fazia perguntas e também não estava interessado em respostas.
-Pra onde agora? – O moreno perguntou estralando o
pescoço.
-Investigar o “Grande G”, os vermes estão há semanas
falando disso. Se fossem só eles ninguém daria bola, mas um burburinho vem crescendo
entre os menores. – Era sempre assim, K falava apenas o necessário e nunca
alterava seu semblante sério e carrancudo onde diversas rugas podiam ser
vistas, vestia-se impecavelmente, o cabelo ralo loiro esbranquiçado estava
sempre do mesmo jeito. Se pudesse escolher apenas uma palavra pra descrever o
mais velho, seria: Chato, mas rotina, costume, mesmice, ordem, responsabilidade
e tédio também se classificavam bem quando o assunto era seu veterano.
Cerca de vinte minutos se passaram entre murmúrios e canções
da parte do moreno que buscava burlar o tédio e o silêncio absoluto do mais
velho, vinte minutos de pura tortura até chegarem a uma sorveteria no leste de
New York. K entrou primeiro, retirou seus óculos escuros e se aproximou do
balcão onde uma atendente de uniforme azul e branco não demonstrou felicidade
ao vê-lo.
-Fique lá fora de
vigia. – Ordens diretas, certo, outro item a acrescentar na lista de chatices
do rabugento branquelo, J respirou fundo e até tentou contestar, mas acabou
chutando o ar do lado de fora da sorveteria, frustrado e sozinho.
-Mimimi faça isso, mimimi faça aquilo. Quando voltamos a
ser recruta e chefe? Ele se esquece de tudo que já fiz, isso deveria ser uma
equipe! – Bufou, erguendo o rosto para o céu. –O que é aquilo? – Levou a mão
esquerda até a testa e crispou os olhos, uma sombra de tonalidade vermelha dançava
entre as nuvens, aquilo não poderia ser um avião. Sem perceber o agente passou
a caminhar na direção que o objeto seguia, parecia estar caindo.
Quando deu por si, corria entre pedestres, aliens, cães,
atravessando a rua na frente de carros e demais veículos, o OVNI agora expelia
uma grossa fumaça negra e chamava mais atenção, estava caindo depressa.
J sentia as pernas fraquejando, tomava impulso a cada
passo dado, embutindo ainda mais velocidade. Não faria falta alguma ao parceiro
mesmo, não é? Verificar aquilo poderia ser de alguma utilidade.
Apoiou uma das mãos na murada que separava a areia de
Coney Island da civilização e saltou em direção ao oceano, o coração batia
descompassado no peito e o ar lhe faltava em grandes arfadas. Agora o OVNI já
de tamanho considerável chocava-se audível e violentamente contra a água
salgada e feroz do mar. J retirou os sapatos e o paletó, jogando-os sem cuidado
algum na praia deserta e se jogou no azul esverdeado que afundava a nave
rapidamente.
Nadou depressa com braçadas longas, tomando fôlego a cada
minuto. Seus olhos ardiam e podia sentir o nariz ardendo, parou e olhou em
volta. Onde estava a espaçonave? Mergulhou a tempo de ver uma estranha criatura
de cabeça larga, maior do que o corpo, sendo este escamoso e de um rabo
comprido e de fim pontiagudo, emergir depressa.
-Hey você! –Gritou já sem fôlego, sendo ignorado pelo
extraterrestre. –Você aí! Identifique-se! – Apontou para a criatura, finalmente
notando que esta o olhava fixamente, a boca aberta lotada de dentes pontiagudos
expelia uma espécie de gosma negra que se assemelhava a lama, os olhos
vermelhos pareciam reluzir e ela (seja lá o que aquilo fosse) estava vindo em
sua direção.
Sacou sua arma do bolso o mais depressa que pôde, a água
dificultava e muito seus movimentos, ergueu-a e se deparou com os grandes orbes
rubros, cara a cara com a criatura aparentemente hostil.
-Eaí? –engoliu em seco, as ondas se movendo ao redor de ambos,
J e o lagarto cabeçudo se fitavam. –Você tem autorização para estar aqui?
–perguntou, a voz meio trêmula. – Não pode entrar na terra desse jeito, humanos
podiam ter visto, de qual planeta veio e qual sua identificação?
Sem resposta.
Respirou fundo.
-De qual planeta veio, tem autorização e qual seu
propósito? Responda. –Pediu de novo, o alien sequer piscava. –Responda, não vou
pedir de novo.
A criatura abriu a boca, a baba novamente negra
escorrendo entre suas várias fileiras de dentes –Destruir – sua voz horrenda e
monstruosa, grossa e anormal soou mais como um rugido. J não precisava de mais
nada, a resposta havia sido claramente dada.
O monstro moveu a cauda investindo contra o humano
enquanto com a cabeça tentava abocanhá-lo. J esquivou-se afundando novamente na
água e emergindo poucos centímetros longe dele, apontou e atirou. O monstro se
esquivou depressa, mas não a tempo suficiente de levar o tiro de raspão, seu
rugido de dor ecoou pelo ar como um alude à morte, ele não desistiria.
-Pode vir, quer destruir o mundo bonitão? Vai ter que
passar por mim antes. – J estava cansado, porém se mantinha firme, a arma
apontada para a cabeça do alien e o coração a mil. – Se você fosse tão forte
quanto seu hálito é ruim a gente tava frito, mas quer saber? Você não é de
nada.
Outro rugido.
Certo, talvez irritar o lagarto cabeçudo não fosse a melhor ideia, mas aquilo o acalmava e o ajudava a pensar num plano. Onde estaria K? Ele não havia visto nada daquilo? E depois o irresponsável era ele...
Certo, talvez irritar o lagarto cabeçudo não fosse a melhor ideia, mas aquilo o acalmava e o ajudava a pensar num plano. Onde estaria K? Ele não havia visto nada daquilo? E depois o irresponsável era ele...
A criatura avançou novamente, dessa vez mais lenta,
talvez pelo ferimento, talvez pelo orgulho ferido, quem sabe? Ela agarrou-se a
J tentando mordê-lo e seu rabo pontiagudo finalmente acertou a perna do humano,
puxando-o consigo para a água, afundando depressa a fim de afogá-lo.
J atingiu-o novamente, dessa vez no peito de carapaça
dura, seus olhos ardiam juntamente com seu nariz, estava engolindo água e o ar
lhe faltava, já começava a se sentir mole conforme o sal do mar queimava na
ferida recém adquirida na perna. Com um golpe chutou o lagarto, tentando
afastá-lo de si e acabando ferido por suas garras nos braços e ombros, não
morreria daquela forma, o grande J não morreria assim tão fácil.
Atirou sem nem olhar pra onde atirava, só precisava se
livrar daquele brutamonte nojento e escamoso, ele agarrava-se em si como uma
serpente. Com o punho deu-lhe um murro certeiro no queixo enquanto puxava do
pescoço da criatura um estranho amuleto em formato de meia lua, o golpe o
afastou momentaneamente, era sua chance.
Mirou.
Atirou.
E a cabeça da criatura explodiu em pedaços verdes e
negros no mar.
J nadou depressa até a superfície, respirou fundo e
guardou a arma no bolso da calça, devidamente presa, tornou a nadar. –Quem
mandou menosprezar o negão aqui? Lagarto cabeçudo! Feioso!
Ao chegar até a areia, estava exausto e K, que não
ajudara em absolutamente nada o observava carrancudo.
-Ah qual é, K? Eu quase morri ali e você nem pra me dar
uma mão? –bufou sacudindo a água de si e apontando para o mais velho, guardando
em seguida o cordão no bolso sem nem perceber. –Não te ocorreu que eu talvez
precisasse de ajuda?
-Sua tarefa era ficar de vigia na sorveteria, não caçar
aventuras submarinas com “O Espanta Tubarões”. –cortou, ríspido, sarcástico. J
mordeu o interior da boca e cerrou os punhos. –Vamos voltar pra base, já
conseguimos o que viemos buscar.
-É? E o que seria isso? –O moreno pegou o paletó do chão
e calçou os sapatos, seu mau humor aumentava a cada momento. – Desde que saímos
você não me deu detalhe algum de nada. Acabei de matar uma lagartixa que babava
petróleo, que chegou aqui sem problema algum? A Terra não possui defesas
especializadas? Vigilância? Como ele entrou aqui? Olha K, se vamos continuar
nessa você precisa me dar informações, estou trabalhando as cegas aqui.
-Estamos voltando para a base e lá você terá suas
informações. – O mais velho deu-lhe as costas e rumou para o carro.
Ah, aquilo o deixava extremamente puto.
-----
-Então, -J servia café para os Vermes na base, tinha as
costas curvadas devido o local e a jarra cheia do líquido viscoso. – Falem
sobre o “Grande G” e vocês ganham mais café. – sorria, afastando o café e os
copos das baratas. –Falem ou não dou café!
-É uma profecia!
-Não é nada confirmado!
-Nos dê o café!
-Falem! –ordenou, os Vermes saltavam, puxando-o pelas
calças. –Falem e dou até mais café do que o prometido.
O mais barrigudo dos vermes apoiou-se confortavelmente,
com pose de malandro no armário. –É algo que apenas John Fang Lee poderia te
dizer e infelizmente ele sumiu no tempo tem algumas horas. Isso é informação
sigilosa J, nos dê o café!
-Certo, certo. Continuem falando. – Despejava o café
inundando o ambiente com o cheiro forte e adocicado da bebida. – Quem é esse
cara?
-É um maluco que quer mudar o passado, parece que levou
armas perigosas de tecnologia alienígena para o tempo e ninguém sabe ao certo
em qual época ele parou. K nunca vai te falar isso porque você já se meteu com
o tempo antes.
-E mexer com o tempo pode te deixar mais doido do que já
é. –Outro verme concluiu, bebericando mais do café. –É tudo que sabemos, agora
passa a jarra de café aqui!
O agente deixou a sala dos Vermes sem muito entusiasmo,
buscar nos arquivos da agência não adiantava muito, não quando se tratava de um
assunto sigiloso.
-Hey J! – uma das baratas o chamou, fazendo-o virar-se
para trás e encará-lo. – Busque o amuleto Adama, entre os pequenos dizem que
isso pode ajudar a evitar que a profecia se complete, o primeiro passo é deter
a mudança no passado. Aquele que matar a besta e portar o amuleto será o
escolhido.
“Escolhido?”
Enfiou a mão no bolso e tirou de lá o cordão com o
pingente de meia lua, não custava tentar, custava?
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Não havia tempo a se considerar.
J respirou fundo, suas mãos suavam e podia se sentir
inteiramente frio. Deu alguns passos para trás e tornou a tomar fôlego, não
conseguia acreditar que estava fazendo aquilo de novo. Estralou os ombros e
correu o máximo que pôde em direção ao abismo a frente do prédio, o coração
disparado e um grito preso à garganta.
Estava saltando no tempo novamente.
Nunca conseguiria se acostumar com aquela sensação.
Tinha a corrente presa ao pescoço e apertava o amuleto
fortemente na mão, fechou os olhos enquanto caia e gritava desesperado e ao
abri-los novamente, deparou-se com um deserto.
-Ué, eu não devia ter entrado no tempo? – Mal teve tempo
de cuspir a frase, crispou os olhos e franziu a testa para o horizonte onde uma
fileira de casas de madeira se estendia, não havia asfalto, sequer carros ao
que parece. –Certo... Eu entrei no tempo.
Bateu o pó e a terra da roupa e caminhou em direção a
cidade, aquilo ainda era na América? Tudo parecia tão... Antiquado. A meia lua
em seu peito emitia um leve brilho azulado, tratou de escondê-la bem na camisa.
–Isso é o velho oeste. – Constatou, rindo consigo mesmo ao ver um Saloon e
alguns “vaqueiros” bebendo e cuspindo próximos a cavalos na porta do mesmo.
Não deveria se passar das três da tarde, K estava
desesperado juntamente com toda a equipe da MIB e ele, novamente, havia se
metido com viagens no tempo. O amigo não poderia culpá-lo, ele havia matado a
besta, tinha o amuleto e sabia como burlar as ordens incansáveis das muralhas
de tempo. Aquela missão era sua.
Tudo o que precisava agora era de roupas típicas...
--
Velho
Oeste Americano, quarta-feira, 15 de Junho de 1866, noite.
A música soava animada e pungente, belas dançarinas de
pernas de fora, espartilhos apertados que salientavam seus seios fartos e meias
finas que subiam até metade das coxas presas por cintas ligas, desfilavam por
todo o Saloon, servindo cervejas e água ardente para os homens ali presentes.
J tinha um chapéu caído por cima do olho esquerdo, uma
camisa branca surrada coberta por um colete negro e luvas sem dedos,
inacreditavelmente roubara tudo de um varal. Seu corpo estava parcialmente
debruçado na cadeira e se detinha em fingir estar bêbado para ouvir as
conversas e murmurinhos do local. Rodava um copo entre os dedos, alternando
entre um gole ou outro que não bebia, na mesa ao lado cinco homens jogavam
cartas em um papo animado sobre roubos e armas.
-Doutor Loveless conseguiu uma máquina voadora, não há
nada que possa barrar isso, Jack. Vamos saquear os trens com ela e ainda
podemos destruir qualquer espécie de perseguição que o xerife tente conosco. Já
viu as armas dele? Tudo o que precisamos é jurar lealdade. –O loiro jogava as
cartas na mesa, distribuindo-as entre os companheiros, várias garrafas de
bebida já haviam definhado pelas mãos dos grupos e agora, conforme o álcool
subia a cabeça e o fumo dos charutos de má qualidade os deixavam mais e mais
trôpegos, as informações começavam a ser reveladas.
-Máquina que voa? Consegui um colete a prova de balas com
ele. Já jurei minha lealdade, Smith. Não quero ficar de fora desse
acontecimento, vamos tomar os Estados Unidos da América e não vai ter nada que
aquele desgraçado do Ulysses
S. Grant possa fazer sobre isso. –Jack, pois este era o nome do
moreno barbudo de olhos verdes, este também fazia parte do esquema, notou J.
-Do que estão falando? – Uma das garotas se aproximou
servindo mais bebida ao grupo. –Não me diga que é sobre as armas desumanas de
novo? Smith, não te quero mexendo com magia negra. Se souber que está andando
com Jack e Loveless, não se deitará mais na minha cama e nem verá debaixo da
minha saia. –Apontou o dedo fino enluvado para o rapaz que ergueu as mãos em
resposta. –Fiquem longe da Aranha de Loveless, ou acabarão todos mortos, é um
aviso de quem ama vocês.
-Ooh Mercy Lewis, todos sabemos que se deitar em seus
lençóis é a coisa mais fácil da terra, nem precisa ter dinheiro, sorrindo da
forma correta você já ergue as saias. Seremos ricos, a riqueza que Loveless
oferece jamais será equipada a esses serviçinhos desumanos e escravos que pagam
pouco. Quer que a gente morra garimpando? Seremos ricos e não será por causa do
ouro dos tolos, será por causa das balas ágeis de nossas armas e nossa
valentia.
J ergueu uma das mãos chamando Mercy com a mesma, a ruiva
fez um pequeno bico de desgosto e acenou se despedindo do grupo de bandidos,
segurou a bandeja redonda com ambos os braços, abraçando-a e caminhou com seus
saltos altos vermelhos até a mesa do agente. – O que deseja? Mais cerveja?
-Onde encontro a aranha de Loveless? – perguntou, o
chapéu ainda encobrindo seus olhos. –Não sou praticante de magia negra, mas ele
possui algo meu de extremo valor e preciso recuperar. Concordo com você, doce
Mercy Lewis, mas preciso de sua ajuda.
-O senhor, meu caro peregrino, está buscando a morte. Não
deveria te dizer isso, mas se está mesmo interessado em lutar contra o próprio
demônio, vá até o território dos Oglala Lakota e a partir disso é por sua conta
e risco.
J saiu do Saloon, pelo que entendera até ali o Doutor Arliss Loveless utilizava tecnologia do
futuro para criminalizar ainda mais o velho oeste, tinha armas como
metralhadoras, robôs, aviões, coletes a prova de balas, tanques a vapor, livros
carregados de balas e bicicletas de rodas gigantes, seja lá o que aquilo fosse.
A seu ver, Arliss Loveless só poderia ser John Fang Lee ou detinha
contato com o mesmo.
Não era um partidário do roubo, mas se essa era sua única
escolha, bem, cederia a ela. Conseguiu um cavalo de crina negra de um estábulo
qualquer, era meio velho e não cavalgava com a mesma agilidade de antes, mas
era tudo que tinha disponível.
Após uma corrida longa na qual estipulou duas horas e
meia chutando alto, seu traseiro doía e os sapatos de bico estranho feriam seus
pés, como os homens conseguiam viver daquela forma?
O agente respirou fundo e alisou o cavalo dando-lhe algum
incentivo, pelo que entendera das informações conseguidas, estava no caminho
certo e ao cruzar o horizonte depois de algumas pedras em formato estranho onde
coiotes habitavam, estaria em território indígena, só não esperava que mesmo
distante do mesmo ainda fosse capaz de ver o fogo de explosões, inalar a fumaça
com odor de carne queimada e ver uma construção robótica gigantesca se movendo
por dentre as chamas que consumiam a aldeia.
Meneou com a cabeça e atiçou o cavalo com as esporas de
seu sapato, fazendo-o correr o máximo possível em direção a matança. A visão
que teve foi aterradora, humanos conseguiam ser mais destrutivos do que aliens.
A aldeia havia sido devastada.
Diversos corpos inertes ao chão, banhados em sangue.
Crianças, mulheres, homens, velhos, animais. Todos massacrados, mortos de forma
covarde e insana por um bandido que nem sequer deveria estar ali.
As ocas destruídas, pegando fogo, os poucos sobreviventes
sendo atingidos com uma espécie de metralhadora que disparava incessante por
uma das aberturas da imensa aranha mecânica.
J sacou sua arma, os olhos lacrimejando ainda ouvindo os
gritos de agonia e dor pedindo por ajuda e socorro, e disparou contra a aranha.
O som alto que se seguiu calou todos ainda vivos ali e a aranha veio ao chão
como se nunca tivesse sido capaz de andar antes.
O agente correu com seu cavalo para dentro do inferno que
se tornara o território dos índios, isso, a tempo de ver seu inimigo e viajante
do futuro de olhos puxados, John Fang Lee, saindo dos escombros do que antes
fora um robô.
-Você! Parado aí! –O moreno gritou apontando sua pequena
pistola para o oriental. – John Fang Lee, parado aí! –Finalmente obtida
atenção, se viu na mira do mesmo, - Só pode ser brincadeira... – O oriental
usava um colete a prova de balas diferente do habitual e tinha em mãos uma arma
claramente alienígena, coisa que reconhecia dos Capricanos, geralmente tranquilos,
mas, com a existência dos fiéis revolucionários, tinham em mãos armas
extremamente perigosas. – Você vem comigo!
-Somente um de vocês? A grande MIB só enviou um mísero
soldado para me combater? Me sinto ofendido, ou talvez lisonjeado. A minha
vitória sobre a humanidade trará a ruína de todos vocês. –Riu, riu como se isso
fosse particularmente normal em um diálogo e em um momento como aquele, riu
como um bom vilão faria, insano e estúpido. – Pois saiba que eu não voltarei
contigo, eu nem mesmo vou voltar. Fique aqui preso nessa terra onde o ouro é
cultuado, se quer saber fiz um favor ao presidente dizimando essa aldeia. Mas
só digo uma coisa, abaixe sua arma homenzinho, eu nem estou mais aqui.
E dito isso ele atirou na direção oposta ao agente, um
raio verde luminoso e translúcido que abriu uma espécie de portal no ar.
-Adeus! –avisou, correndo para dentro do mesmo, J atirou,
mas o colete repeliu o tiro, então ele atiçou o cavalo e saltou para dentro do
portal juntamente com o louco.
---
New
York, 2035 - Sem especificações de dia, hora ou mês-
Abriu os olhos, sentia-se levemente enjoado. A luz no
ambiente o cegou por alguns instantes e o fez cobrir o rosto com ambas as mãos.
Onde estava o cavalo com o qual pulara para dentro do portal? Onde estava o
chinês maldito que o tinha metido nisso?
Nada.
Olhou em volta e tudo ao seu redor se resumia em corpos
humanóides e robóticos de tonalidade esbranquiçada em fila indiana, milhares
deles.
-Onde eu estou? Pra onde aquele maluco me trouxe? – Girou
em torno de si mesmo fazendo com que seus sapatos rangessem no chão,
estranhamente a roupa de cowboy de Brokeback Mountain havia sumido e sido
substituída por suas roupas originais, ao menos o estilo estava de volta.
O ferimento em sua perna não mais doía, não sentia fome,
frio ou sono. Quanto tempo havia se passado desde que decidira se aventurar
pelas areias do tempo?
Sentia falta do rabugento K, sentia falta de sua cama e
até mesmo dos vermes. Mas não voltaria até terminar aquilo, até porque não
sabia como voltar.
Caminhou incerto e hesitante pelo longo salão onde os
robôs estavam dispostos e enfileirados, nenhuma alma viva ali presente apenas o
silêncio aterrador e sepulcral, se existia uma coisa que J havia aprendido em
todos aqueles anos trabalhando para a MIB, era que o silêncio em um ambiente
hostil nunca era bem vindo, até mesmo a natureza se calava na presença de um
predador e este, infelizmente não era ele.
Após alguns minutos caminhando na imensidão branca,
encontrou uma porta e por ela saiu. O longo corredor a frente mais vazio do que
o salão anterior, - Isso não cheira nada bem, - murmurou, apesar do cheiro do
ambiente ser levemente perfumado por aloe e vera, não se referia àquilo,
claramente.
Apressou o passo, ali tudo era artificial. Mesmo as
plantas, samambaias e algumas espécies de flores as quais nunca se dera ao
trabalho de decorar os nomes, todas de plástico. Não havia quadros, não havia
janelas, apenas um longo corredor branco e totalmente iluminado, impecável.
Por um momento se pegou pensando se havia finalmente
enlouquecido, se estava em um hospício ou se aquele era mesmo o planeta terra.
E foi aí, nesse momento que um som muito alto de algo se quebrando o acordou de
seu transe.
Virou-se na direção do som e correu, precisava descobrir
onde estava, quando estava e o mais importante onde estava o maldito Fang Lee
que caçava, só conseguiria sair daquela prisão temporal com ele, não é mesmo?
Correu o mais rápido que podia. Gritos e tiros podiam ser
ouvidos mais e mais altos conforme se aproximava cada vez mais do local em
questão, virou o corredor duas, três, cinco vezes ou mais até se deparar com um
grande pátio em total processo de destruição.
Lá estava Fang Lee.
Seus cabelos mais compridos do que a última vez que o
vira, uma barba rala e cinza crescendo em seu rosto achatado e vestia-se de
forma diferente também, um sobretudo negro surrado e camisa vermelha, fora
isso, ainda era o mesmo canalha insano.
O inovador na cena não era Lee, mas sim o que caçava Lee.
Lá estava o que em sua concepção poderia ser chamado de
trator, caminhão, monstro, van do Scooby-Doo, caminhonete dos Caça-fantasmas e
se bobeasse, poderia chamar até mesmo de mini King Kong.
Mas era um robô.
Certamente era um robô.
E não qualquer tipo de robô, não do tipo que vira minutos
atrás no salão branco. Este estava armado, este queria destruir e aparentemente
o alvo era Lee, ou quem sabe, todo o prédio já que ele atirava com suas
metralhadoras e lasers por todas as direções possíveis.
Não havia mais nada intacto ali.
As vidraças que antes deveriam ser imponentes e dar à
construção um ar intelectual e social estavam quebradas e espalhadas em vários
cacos sob o chão cheio de rachaduras e estilhaços de madeira e tijolos.
Seja lá quanto tempo fora perdido entre a viagem de Lee e
a sua, J sabia que algo muito errado estava acontecendo ali, mas que afinal de
contas, estava do lado do robô.
O agente desceu correndo as escadas que antes deveriam
funcionar com eletricidade e que agora não passavam de sujeira, saltou alguns
degraus semi destruídos e acabou ali, cara a cara com a luta, sendo um alvo
fácil para o robô, corria, esquivando-se dos tiros, dos objetos que voavam em
sua direção, corria tentando alcançar Lee.
De qualquer maneira não poderia deixá-lo ser morto,
poderia? Se voltasse de mãos abanando quem sabe o que aconteceria com o destino
da humanidade? Destino, palavra estranha, nem fazia parecer que ainda existia o
livre arbítrio.
Sacou sua arma depressa e mirou no robô, atingindo uma de
suas várias ferragens, o que incrivelmente não surtiu efeito algum no
brutamonte. Notou que Lee já estava ferido, precisava rendê-lo e tirá-lo dali o
quanto antes.
-Sequência de auto-destruição iniciada, eliminação total
de alvos em 10, - J levou a mão até a testa ao ouvir a voz feminina
automatizada soar do monte de ferro ambulante, sério? Ferindo o robô, se
iniciava a auto-destruição? Se sentia em um maldito episódio de Battlestar
Galactica ou um filme de ficção cientifica os quais nunca tivera muita
paciência de assistir, não gostava de pensar, era mais de agir.
-Lee precisamos sair daqui! –gritou correndo em direção
as portas de vidro quebradas, - Ele vai explodir tudo!
-5...
-Anda! – gritou de novo, passando pelo buraco depressa e
chamando o chinês lunático do lado de fora com a mão. – Corra!
-3...
Lee não se deu ao luxo de responder, apenas obedeceu o
melhor que pôde não sendo muito eficaz em sua execução de tarefa. J protegeu-se
encolhendo o corpo após correr poucos passos e cobrindo a cabeça, tudo fora ao
chão em uma explosão sem igual.
A pressão do ar fora tanta que os estilhaços de vidro
voaram em sua direção, seus ouvidos estavam tampados e a poeira subira como
névoa ao ar.
Em questão de dez segundos, um prédio inteiro havia
ruído.
E Lee ruíra com ele.
Minutos após, J se ergueu dos escombros, sacudiu a poeira
do corpo e deu três lances de passos a frente, passou por cima de alguns
pedaços grandes de cimento, concreto e o que mais que fosse que explodira junto
ao robô. Sua busca levou algum tempo até que encontrasse o corpo quase todo
omitido por pedras, de Lee.
-E então Lee, vai me dizer qual é a profecia antes de
morrer? Não acha que isso tudo que fez, não levou a nada? Te persegui do velho
oeste até aqui, e pra quê? Pra te ver morrer diante dos meus olhos? –
agachou-se, seus olhos negros encarando os cortados sujos de sangue.
-Você... –Lee tossiu, respirava com dificuldade, seu
corpo havia sido amassado no processo, era impossível sobreviver àquele tipo de
coisa. – Você nunca vai parar a profecia, me assegurei disso ao morrer aqui. Eu
era o único que poderia parar a transmissão de dados intergalácticos que
passava toda a história da humanidade ao Grande G. Quando voltar ao seu tempo,
não poderá fazer nada além de morrer. Entenda... –Tossiu novamente, a voz
falhando e definhando mais a cada palavra dita. – Meu objetivo foi cumprido e
assim que eu morrer... Você será enviado novamente à morte.
-É o que? Isso tudo foi um jogo pra você? Fugiu pra
condenar a humanidade, é isso mesmo? Escuta aqui japonês, se você pensa que
tudo acaba assim, saiba que... –J arregalou os olhos, seu corpo estava sendo
envolvido por uma luz azul, Lee estava morto e ele finalmente estava sendo
enviado de volta para seu tempo.
Sim, tudo havia acabado como o planejado pelo insano
Doutor Loveless, ou melhor, Fang Lee.
---
“Bem-Aventurados
aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as
coisas nela escritas, pois o Tempo está próximo.”
Apocalipse 1:3
J pensou que não conseguiria se assustar com mais nada
que visse em sua vida desde a entrada na MIB. Presenciara o nascimento e a
morte dos mais bizarros aliens, inclusive algo que não se orgulhava, vira até
mesmo o coito de alguns. Robôs, naves, monstros de todos os tipos inimagináveis
pela graça da humanidade e ainda assim existentes nesse universo tão gigantesco
e surreal.
Mas lá estava uma cena que acreditou que nunca
presenciaria na vida.
O apocalipse.
New York não era nem de longe o que um dia fora. J estava
no terraço de um prédio isolado, não muito distante da sede da MIB. Era dia e
tudo o que conseguia entender era que o pior já havia acontecido.
Os prédios antes tão vivos, arranha-céus belíssimos,
agora não passavam de uma piada suja de um universo distópico onde tudo não
passava de destruição e dor. Era tudo
cinza, o sol parecia não ter mais cor. Os carros novos e velhos, quebrados,
abandonados nas ruas juntamente de motos e demais veículos, jornais, papéis,
roupas, tudo jogado como se uma guerra de gangues do Warriors tivesse tomado
conta de toda a cidade.
J chutou a porta do terraço e desceu correndo as escadas
do prédio no completo breu, parecia que desde seu encontro com o alien no
oceano, seu dia a dia se tornara correr. Sentia novamente a ferida na perna
pinicar e arder, o que indicava estar no tempo certo.
Passou pelas ruas solitárias e vazias, mortas, com
pressa, até chegar onde geralmente entrava para ter acesso ao universo dos
Homens de Preto e lá encontrou tudo tão morto quanto a cidade.
-Não pode ser... Isso não está acontecendo.
–Desesperava-se, atônito e assustado. A humanidade não poderia ter se
extinguido daquela forma.
Após alguma insistência entrou na sede e se deparou com
apenas um, um único verme, sentado sob uma bancada de mármore quebrada, o chão
antes lustroso agora lotado de folhas secas e sujeira.
-Verme? –chamou, notando-o assustando e vendo-o correr de
si. –Verme sou eu, J! Volte aqui!
-J? – a criaturinha amarela parou, virando-se e correndo
até ele, jogou-se em suas pernas abraçando-o com seus vários braços. –J, onde
esteve? Não pensamos que sua viagem no tempo demoraria tanto! O mundo
praticamente acabou.
E assim o Verme restante explicou, detalhe por detalhe
enquanto o sol tomava seu rumo no horizonte, cada vez mais distante, o que
ocorrera na terra.
O Grande G descera até o planeta humanóide, espalhando
nele um vírus que transformava as pessoas em uma espécie de zumbi ou vampiro,
eles se tornavam extremamente brancos, com veias saltadas na pele rachada e
lisa, carecas e com uma fraqueza incontrolável a luz do sol.
Humano por humano havia sucumbido ao vírus, o pouco de
consciência restante em cada um era reservada para os já transformados.
Sobreviver se tornara um verdadeiro desafio.
Boa parte dos aliens havia abandonado o planeta àquela
altura do campeonato, não fazia sentido em viver em um local morto e perigoso
como aquele onde, a vida não mais brotava, onde tudo se resumia em sussurros de
fantasmas do passado, um passado onde a humanidade ainda tinha esperança.
-Mas sabe, existe uma forma de acabar isso. Vê esse
amuleto que tanto te ajudou a viajar pelos confins do tempo? Dentro dessa lua
existe um elixir capaz de matar o Grande G, o último de sua raça, aquele que
perpetua o vírus. Você precisa fazer com que este colar entre em contato com a
pele dele, precisa que o líquido escorra por ele, J. Se existir algum humano
vivo, algum humano cuja existência não foi totalmente tomada pelo vírus, ele
viverá sem problemas, podendo dar continuidade na sua raça. Mas... Não sei se você
conseguirá sair vivo dessa, meu chapa.
MIB havia feito experiências com as criaturas antes que
os próprios humanos da organização também sucumbissem ao vírus e nada fora
capaz de detê-lo ou aplacar seu efeito.
Verme explicou ainda que J deveria ir até a caverna onde
o Grande G se escondia, ele residia lá sozinho e J teria que fazer isso antes
do pôr-do-sol, as criaturas não ousavam se aproximar da caverna do demônio, o
agente precisaria fazer isso.
E rápido.
E assim J o fez. Com uma moto chegou até a caverna
próxima a praia, entrou dentro dela e tomou fôlego.
-G! Sei que está aqui, venha até mim. Eu sou o escolhido!
– tinha sua arma de prontidão, preparada para atirar, mal conseguiu ver o que
corria em sua direção, atirou quatro ou cinco vezes em um vulto rápido e tudo o
que pôde ouvir foi um rosnado animalesco. –Eu sou o escolhido e provavelmente
ultimo humano na terra, não quer me destruir? Pare de fugir e venha até mim!
Com um golpe forte J foi jogado contra a parede áspera da
rocha e sentiu uma costela dentro de si reclamar de dor, arfou de dor. –Merda!
Me encare! Olhe pra mim, seu bosta! – gritou novamente e seu desejo foi
obedecido.
Lá estava, respirado seu hálito de podridão e morte,
baforando contra seu rosto a criatura sem nariz e olhos fundos, era careca e
seco, esguio, tinha a pele tão branca quanto papel e veias saltadas pelos
braços e pescoço.
-Se eu morrer, você morre junto, seu merda! –urrou
puxando-o contra si e rolando pelo chão da caverna se certificou de prender o
colar ao pescoço do monstro, quebrando-o com as próprias mãos e se cortando no
processo.
Sentiu quando os dentes afiados da criatura rasgaram seu
pescoço, arrancando um bom pedaço dali e fazendo o sangue quente escorrer, em
seguida, caindo ao seu lado enquanto se desfazia em agonia, contorcendo seu
corpo nojento no musgo.
-Eu disse... Eu morro... Mas eu te mato junto. – J caiu
ao seu lado, segurando a ferida no pescoço, deixou os olhos se fecharem
devagar, podia sentir os dedos formigando e um frio tomando conta de seu ser.
Agora um sermão de K cairia bem.
Sorriu, um sorriso miúdo e satisfeito e se deixou levar
pelos braços gentis e carinhosos da morte.
Ator:
Will Smith
Filmes:
-MIB
-O Espanta Tubarões: Citação.
-As Loucas Aventuras de James West
-Eu, Robô
-Eu sou a Lenda
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