domingo, 12 de julho de 2015

Fuga Temporal

Não conseguia se lembrar de como havia acabado ali, sentia-se minúsculo cercado por árvores gigantescas e prédios em ruínas que alcançavam o céu e o encobriam. Vultos o cercavam como flashes de imagens e vídeos distorcidos, cenas de seu passado, pessoas que amara e perdera em um misto de sorrisos e agonia.
J deu um passo à frente, estendeu a mão para tocar o que quer que fosse aquilo e em um piscar de olhos, acordou.
Respirou fundo, o suor frio escorrendo pela testa. Não costumava ter muitos sonhos, mas aquele emprego por mais excitante que fosse, estava conseguindo lhe render bons pesadelos. Endireitou-se no banco do carro, passou as mãos frias no rosto e bocejou, K como de costume continuava quieto, não fazia perguntas e também não estava interessado em respostas.
-Pra onde agora? – O moreno perguntou estralando o pescoço.
-Investigar o “Grande G”, os vermes estão há semanas falando disso. Se fossem só eles ninguém daria bola, mas um burburinho vem crescendo entre os menores. – Era sempre assim, K falava apenas o necessário e nunca alterava seu semblante sério e carrancudo onde diversas rugas podiam ser vistas, vestia-se impecavelmente, o cabelo ralo loiro esbranquiçado estava sempre do mesmo jeito. Se pudesse escolher apenas uma palavra pra descrever o mais velho, seria: Chato, mas rotina, costume, mesmice, ordem, responsabilidade e tédio também se classificavam bem quando o assunto era seu veterano.
Cerca de vinte minutos se passaram entre murmúrios e canções da parte do moreno que buscava burlar o tédio e o silêncio absoluto do mais velho, vinte minutos de pura tortura até chegarem a uma sorveteria no leste de New York. K entrou primeiro, retirou seus óculos escuros e se aproximou do balcão onde uma atendente de uniforme azul e branco não demonstrou felicidade ao vê-lo.
 -Fique lá fora de vigia. – Ordens diretas, certo, outro item a acrescentar na lista de chatices do rabugento branquelo, J respirou fundo e até tentou contestar, mas acabou chutando o ar do lado de fora da sorveteria, frustrado e sozinho.
-Mimimi faça isso, mimimi faça aquilo. Quando voltamos a ser recruta e chefe? Ele se esquece de tudo que já fiz, isso deveria ser uma equipe! – Bufou, erguendo o rosto para o céu. –O que é aquilo? – Levou a mão esquerda até a testa e crispou os olhos, uma sombra de tonalidade vermelha dançava entre as nuvens, aquilo não poderia ser um avião. Sem perceber o agente passou a caminhar na direção que o objeto seguia, parecia estar caindo.
Quando deu por si, corria entre pedestres, aliens, cães, atravessando a rua na frente de carros e demais veículos, o OVNI agora expelia uma grossa fumaça negra e chamava mais atenção, estava caindo depressa.
J sentia as pernas fraquejando, tomava impulso a cada passo dado, embutindo ainda mais velocidade. Não faria falta alguma ao parceiro mesmo, não é? Verificar aquilo poderia ser de alguma utilidade.
Apoiou uma das mãos na murada que separava a areia de Coney Island da civilização e saltou em direção ao oceano, o coração batia descompassado no peito e o ar lhe faltava em grandes arfadas. Agora o OVNI já de tamanho considerável chocava-se audível e violentamente contra a água salgada e feroz do mar. J retirou os sapatos e o paletó, jogando-os sem cuidado algum na praia deserta e se jogou no azul esverdeado que afundava a nave rapidamente.
Nadou depressa com braçadas longas, tomando fôlego a cada minuto. Seus olhos ardiam e podia sentir o nariz ardendo, parou e olhou em volta. Onde estava a espaçonave? Mergulhou a tempo de ver uma estranha criatura de cabeça larga, maior do que o corpo, sendo este escamoso e de um rabo comprido e de fim pontiagudo, emergir depressa.
-Hey você! –Gritou já sem fôlego, sendo ignorado pelo extraterrestre. –Você aí! Identifique-se! – Apontou para a criatura, finalmente notando que esta o olhava fixamente, a boca aberta lotada de dentes pontiagudos expelia uma espécie de gosma negra que se assemelhava a lama, os olhos vermelhos pareciam reluzir e ela (seja lá o que aquilo fosse) estava vindo em sua direção.
Sacou sua arma do bolso o mais depressa que pôde, a água dificultava e muito seus movimentos, ergueu-a e se deparou com os grandes orbes rubros, cara a cara com a criatura aparentemente hostil.
-Eaí? –engoliu em seco, as ondas se movendo ao redor de ambos, J e o lagarto cabeçudo se fitavam. –Você tem autorização para estar aqui? –perguntou, a voz meio trêmula. – Não pode entrar na terra desse jeito, humanos podiam ter visto, de qual planeta veio e qual sua identificação?
Sem resposta.
Respirou fundo.
-De qual planeta veio, tem autorização e qual seu propósito? Responda. –Pediu de novo, o alien sequer piscava. –Responda, não vou pedir de novo.
A criatura abriu a boca, a baba novamente negra escorrendo entre suas várias fileiras de dentes –Destruir – sua voz horrenda e monstruosa, grossa e anormal soou mais como um rugido. J não precisava de mais nada, a resposta havia sido claramente dada.
O monstro moveu a cauda investindo contra o humano enquanto com a cabeça tentava abocanhá-lo. J esquivou-se afundando novamente na água e emergindo poucos centímetros longe dele, apontou e atirou. O monstro se esquivou depressa, mas não a tempo suficiente de levar o tiro de raspão, seu rugido de dor ecoou pelo ar como um alude à morte, ele não desistiria.
-Pode vir, quer destruir o mundo bonitão? Vai ter que passar por mim antes. – J estava cansado, porém se mantinha firme, a arma apontada para a cabeça do alien e o coração a mil. – Se você fosse tão forte quanto seu hálito é ruim a gente tava frito, mas quer saber? Você não é de nada.
Outro rugido.
Certo, talvez irritar o lagarto cabeçudo não fosse a melhor ideia, mas aquilo o acalmava e o ajudava a pensar num plano. Onde estaria K? Ele não havia visto nada daquilo? E depois o irresponsável era ele...
A criatura avançou novamente, dessa vez mais lenta, talvez pelo ferimento, talvez pelo orgulho ferido, quem sabe? Ela agarrou-se a J tentando mordê-lo e seu rabo pontiagudo finalmente acertou a perna do humano, puxando-o consigo para a água, afundando depressa a fim de afogá-lo.
J atingiu-o novamente, dessa vez no peito de carapaça dura, seus olhos ardiam juntamente com seu nariz, estava engolindo água e o ar lhe faltava, já começava a se sentir mole conforme o sal do mar queimava na ferida recém adquirida na perna. Com um golpe chutou o lagarto, tentando afastá-lo de si e acabando ferido por suas garras nos braços e ombros, não morreria daquela forma, o grande J não morreria assim tão fácil.
Atirou sem nem olhar pra onde atirava, só precisava se livrar daquele brutamonte nojento e escamoso, ele agarrava-se em si como uma serpente. Com o punho deu-lhe um murro certeiro no queixo enquanto puxava do pescoço da criatura um estranho amuleto em formato de meia lua, o golpe o afastou momentaneamente, era sua chance.
Mirou.
Atirou.
E a cabeça da criatura explodiu em pedaços verdes e negros no mar.
J nadou depressa até a superfície, respirou fundo e guardou a arma no bolso da calça, devidamente presa, tornou a nadar. –Quem mandou menosprezar o negão aqui? Lagarto cabeçudo! Feioso!
Ao chegar até a areia, estava exausto e K, que não ajudara em absolutamente nada o observava carrancudo.
-Ah qual é, K? Eu quase morri ali e você nem pra me dar uma mão? –bufou sacudindo a água de si e apontando para o mais velho, guardando em seguida o cordão no bolso sem nem perceber. –Não te ocorreu que eu talvez precisasse de ajuda?
-Sua tarefa era ficar de vigia na sorveteria, não caçar aventuras submarinas com “O Espanta Tubarões”. –cortou, ríspido, sarcástico. J mordeu o interior da boca e cerrou os punhos. –Vamos voltar pra base, já conseguimos o que viemos buscar.
-É? E o que seria isso? –O moreno pegou o paletó do chão e calçou os sapatos, seu mau humor aumentava a cada momento. – Desde que saímos você não me deu detalhe algum de nada. Acabei de matar uma lagartixa que babava petróleo, que chegou aqui sem problema algum? A Terra não possui defesas especializadas? Vigilância? Como ele entrou aqui? Olha K, se vamos continuar nessa você precisa me dar informações, estou trabalhando as cegas aqui.
-Estamos voltando para a base e lá você terá suas informações. – O mais velho deu-lhe as costas e rumou para o carro.
Ah, aquilo o deixava extremamente puto.

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-Então, -J servia café para os Vermes na base, tinha as costas curvadas devido o local e a jarra cheia do líquido viscoso. – Falem sobre o “Grande G” e vocês ganham mais café. – sorria, afastando o café e os copos das baratas. –Falem ou não dou café!
-É uma profecia!
-Não é nada confirmado!
-Nos dê o café!
-Falem! –ordenou, os Vermes saltavam, puxando-o pelas calças. –Falem e dou até mais café do que o prometido.
O mais barrigudo dos vermes apoiou-se confortavelmente, com pose de malandro no armário. –É algo que apenas John Fang Lee poderia te dizer e infelizmente ele sumiu no tempo tem algumas horas. Isso é informação sigilosa J, nos dê o café!
-Certo, certo. Continuem falando. – Despejava o café inundando o ambiente com o cheiro forte e adocicado da bebida. – Quem é esse cara?
-É um maluco que quer mudar o passado, parece que levou armas perigosas de tecnologia alienígena para o tempo e ninguém sabe ao certo em qual época ele parou. K nunca vai te falar isso porque você já se meteu com o tempo antes.
-E mexer com o tempo pode te deixar mais doido do que já é. –Outro verme concluiu, bebericando mais do café. –É tudo que sabemos, agora passa a jarra de café aqui!
O agente deixou a sala dos Vermes sem muito entusiasmo, buscar nos arquivos da agência não adiantava muito, não quando se tratava de um assunto sigiloso.
-Hey J! – uma das baratas o chamou, fazendo-o virar-se para trás e encará-lo. – Busque o amuleto Adama, entre os pequenos dizem que isso pode ajudar a evitar que a profecia se complete, o primeiro passo é deter a mudança no passado. Aquele que matar a besta e portar o amuleto será o escolhido.
“Escolhido?”
Enfiou a mão no bolso e tirou de lá o cordão com o pingente de meia lua, não custava tentar, custava?

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Não havia tempo a se considerar.
J respirou fundo, suas mãos suavam e podia se sentir inteiramente frio. Deu alguns passos para trás e tornou a tomar fôlego, não conseguia acreditar que estava fazendo aquilo de novo. Estralou os ombros e correu o máximo que pôde em direção ao abismo a frente do prédio, o coração disparado e um grito preso à garganta.
Estava saltando no tempo novamente.
Nunca conseguiria se acostumar com aquela sensação.
Tinha a corrente presa ao pescoço e apertava o amuleto fortemente na mão, fechou os olhos enquanto caia e gritava desesperado e ao abri-los novamente, deparou-se com um deserto.
-Ué, eu não devia ter entrado no tempo? – Mal teve tempo de cuspir a frase, crispou os olhos e franziu a testa para o horizonte onde uma fileira de casas de madeira se estendia, não havia asfalto, sequer carros ao que parece. –Certo... Eu entrei no tempo.
Bateu o pó e a terra da roupa e caminhou em direção a cidade, aquilo ainda era na América? Tudo parecia tão... Antiquado. A meia lua em seu peito emitia um leve brilho azulado, tratou de escondê-la bem na camisa. –Isso é o velho oeste. – Constatou, rindo consigo mesmo ao ver um Saloon e alguns “vaqueiros” bebendo e cuspindo próximos a cavalos na porta do mesmo.
Não deveria se passar das três da tarde, K estava desesperado juntamente com toda a equipe da MIB e ele, novamente, havia se metido com viagens no tempo. O amigo não poderia culpá-lo, ele havia matado a besta, tinha o amuleto e sabia como burlar as ordens incansáveis das muralhas de tempo. Aquela missão era sua.
Tudo o que precisava agora era de roupas típicas...

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Velho Oeste Americano, quarta-feira, 15 de Junho de 1866, noite.
A música soava animada e pungente, belas dançarinas de pernas de fora, espartilhos apertados que salientavam seus seios fartos e meias finas que subiam até metade das coxas presas por cintas ligas, desfilavam por todo o Saloon, servindo cervejas e água ardente para os homens ali presentes.
J tinha um chapéu caído por cima do olho esquerdo, uma camisa branca surrada coberta por um colete negro e luvas sem dedos, inacreditavelmente roubara tudo de um varal. Seu corpo estava parcialmente debruçado na cadeira e se detinha em fingir estar bêbado para ouvir as conversas e murmurinhos do local. Rodava um copo entre os dedos, alternando entre um gole ou outro que não bebia, na mesa ao lado cinco homens jogavam cartas em um papo animado sobre roubos e armas.
-Doutor Loveless conseguiu uma máquina voadora, não há nada que possa barrar isso, Jack. Vamos saquear os trens com ela e ainda podemos destruir qualquer espécie de perseguição que o xerife tente conosco. Já viu as armas dele? Tudo o que precisamos é jurar lealdade. –O loiro jogava as cartas na mesa, distribuindo-as entre os companheiros, várias garrafas de bebida já haviam definhado pelas mãos dos grupos e agora, conforme o álcool subia a cabeça e o fumo dos charutos de má qualidade os deixavam mais e mais trôpegos, as informações começavam a ser reveladas.
-Máquina que voa? Consegui um colete a prova de balas com ele. Já jurei minha lealdade, Smith. Não quero ficar de fora desse acontecimento, vamos tomar os Estados Unidos da América e não vai ter nada que aquele desgraçado do Ulysses S. Grant possa fazer sobre isso. –Jack, pois este era o nome do moreno barbudo de olhos verdes, este também fazia parte do esquema, notou J.
-Do que estão falando? – Uma das garotas se aproximou servindo mais bebida ao grupo. –Não me diga que é sobre as armas desumanas de novo? Smith, não te quero mexendo com magia negra. Se souber que está andando com Jack e Loveless, não se deitará mais na minha cama e nem verá debaixo da minha saia. –Apontou o dedo fino enluvado para o rapaz que ergueu as mãos em resposta. –Fiquem longe da Aranha de Loveless, ou acabarão todos mortos, é um aviso de quem ama vocês.
-Ooh Mercy Lewis, todos sabemos que se deitar em seus lençóis é a coisa mais fácil da terra, nem precisa ter dinheiro, sorrindo da forma correta você já ergue as saias. Seremos ricos, a riqueza que Loveless oferece jamais será equipada a esses serviçinhos desumanos e escravos que pagam pouco. Quer que a gente morra garimpando? Seremos ricos e não será por causa do ouro dos tolos, será por causa das balas ágeis de nossas armas e nossa valentia.
J ergueu uma das mãos chamando Mercy com a mesma, a ruiva fez um pequeno bico de desgosto e acenou se despedindo do grupo de bandidos, segurou a bandeja redonda com ambos os braços, abraçando-a e caminhou com seus saltos altos vermelhos até a mesa do agente. – O que deseja? Mais cerveja?
-Onde encontro a aranha de Loveless? – perguntou, o chapéu ainda encobrindo seus olhos. –Não sou praticante de magia negra, mas ele possui algo meu de extremo valor e preciso recuperar. Concordo com você, doce Mercy Lewis, mas preciso de sua ajuda.
-O senhor, meu caro peregrino, está buscando a morte. Não deveria te dizer isso, mas se está mesmo interessado em lutar contra o próprio demônio, vá até o território dos Oglala Lakota e a partir disso é por sua conta e risco.
J saiu do Saloon, pelo que entendera até ali o Doutor Arliss Loveless utilizava tecnologia do futuro para criminalizar ainda mais o velho oeste, tinha armas como metralhadoras, robôs, aviões, coletes a prova de balas, tanques a vapor, livros carregados de balas e bicicletas de rodas gigantes, seja lá o que aquilo fosse. A seu ver, Arliss Loveless só poderia ser John Fang Lee ou detinha contato com o mesmo.
Não era um partidário do roubo, mas se essa era sua única escolha, bem, cederia a ela. Conseguiu um cavalo de crina negra de um estábulo qualquer, era meio velho e não cavalgava com a mesma agilidade de antes, mas era tudo que tinha disponível.
Após uma corrida longa na qual estipulou duas horas e meia chutando alto, seu traseiro doía e os sapatos de bico estranho feriam seus pés, como os homens conseguiam viver daquela forma?
O agente respirou fundo e alisou o cavalo dando-lhe algum incentivo, pelo que entendera das informações conseguidas, estava no caminho certo e ao cruzar o horizonte depois de algumas pedras em formato estranho onde coiotes habitavam, estaria em território indígena, só não esperava que mesmo distante do mesmo ainda fosse capaz de ver o fogo de explosões, inalar a fumaça com odor de carne queimada e ver uma construção robótica gigantesca se movendo por dentre as chamas que consumiam a aldeia.
Meneou com a cabeça e atiçou o cavalo com as esporas de seu sapato, fazendo-o correr o máximo possível em direção a matança. A visão que teve foi aterradora, humanos conseguiam ser mais destrutivos do que aliens.
A aldeia havia sido devastada.
Diversos corpos inertes ao chão, banhados em sangue. Crianças, mulheres, homens, velhos, animais. Todos massacrados, mortos de forma covarde e insana por um bandido que nem sequer deveria estar ali.
As ocas destruídas, pegando fogo, os poucos sobreviventes sendo atingidos com uma espécie de metralhadora que disparava incessante por uma das aberturas da imensa aranha mecânica.
J sacou sua arma, os olhos lacrimejando ainda ouvindo os gritos de agonia e dor pedindo por ajuda e socorro, e disparou contra a aranha. O som alto que se seguiu calou todos ainda vivos ali e a aranha veio ao chão como se nunca tivesse sido capaz de andar antes.
O agente correu com seu cavalo para dentro do inferno que se tornara o território dos índios, isso, a tempo de ver seu inimigo e viajante do futuro de olhos puxados, John Fang Lee, saindo dos escombros do que antes fora um robô.
-Você! Parado aí! –O moreno gritou apontando sua pequena pistola para o oriental. – John Fang Lee, parado aí! –Finalmente obtida atenção, se viu na mira do mesmo, - Só pode ser brincadeira... – O oriental usava um colete a prova de balas diferente do habitual e tinha em mãos uma arma claramente alienígena, coisa que reconhecia dos Capricanos, geralmente tranquilos, mas, com a existência dos fiéis revolucionários, tinham em mãos armas extremamente perigosas. – Você vem comigo!
-Somente um de vocês? A grande MIB só enviou um mísero soldado para me combater? Me sinto ofendido, ou talvez lisonjeado. A minha vitória sobre a humanidade trará a ruína de todos vocês. –Riu, riu como se isso fosse particularmente normal em um diálogo e em um momento como aquele, riu como um bom vilão faria, insano e estúpido. – Pois saiba que eu não voltarei contigo, eu nem mesmo vou voltar. Fique aqui preso nessa terra onde o ouro é cultuado, se quer saber fiz um favor ao presidente dizimando essa aldeia. Mas só digo uma coisa, abaixe sua arma homenzinho, eu nem estou mais aqui.
E dito isso ele atirou na direção oposta ao agente, um raio verde luminoso e translúcido que abriu uma espécie de portal no ar.
-Adeus! –avisou, correndo para dentro do mesmo, J atirou, mas o colete repeliu o tiro, então ele atiçou o cavalo e saltou para dentro do portal juntamente com o louco.

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New York, 2035 - Sem especificações de dia, hora ou mês-

Abriu os olhos, sentia-se levemente enjoado. A luz no ambiente o cegou por alguns instantes e o fez cobrir o rosto com ambas as mãos. Onde estava o cavalo com o qual pulara para dentro do portal? Onde estava o chinês maldito que o tinha metido nisso?
Nada.
Olhou em volta e tudo ao seu redor se resumia em corpos humanóides e robóticos de tonalidade esbranquiçada em fila indiana, milhares deles.
-Onde eu estou? Pra onde aquele maluco me trouxe? – Girou em torno de si mesmo fazendo com que seus sapatos rangessem no chão, estranhamente a roupa de cowboy de Brokeback Mountain havia sumido e sido substituída por suas roupas originais, ao menos o estilo estava de volta.
O ferimento em sua perna não mais doía, não sentia fome, frio ou sono. Quanto tempo havia se passado desde que decidira se aventurar pelas areias do tempo?
Sentia falta do rabugento K, sentia falta de sua cama e até mesmo dos vermes. Mas não voltaria até terminar aquilo, até porque não sabia como voltar.
Caminhou incerto e hesitante pelo longo salão onde os robôs estavam dispostos e enfileirados, nenhuma alma viva ali presente apenas o silêncio aterrador e sepulcral, se existia uma coisa que J havia aprendido em todos aqueles anos trabalhando para a MIB, era que o silêncio em um ambiente hostil nunca era bem vindo, até mesmo a natureza se calava na presença de um predador e este, infelizmente não era ele.
Após alguns minutos caminhando na imensidão branca, encontrou uma porta e por ela saiu. O longo corredor a frente mais vazio do que o salão anterior, - Isso não cheira nada bem, - murmurou, apesar do cheiro do ambiente ser levemente perfumado por aloe e vera, não se referia àquilo, claramente.
Apressou o passo, ali tudo era artificial. Mesmo as plantas, samambaias e algumas espécies de flores as quais nunca se dera ao trabalho de decorar os nomes, todas de plástico. Não havia quadros, não havia janelas, apenas um longo corredor branco e totalmente iluminado, impecável.
Por um momento se pegou pensando se havia finalmente enlouquecido, se estava em um hospício ou se aquele era mesmo o planeta terra. E foi aí, nesse momento que um som muito alto de algo se quebrando o acordou de seu transe.
Virou-se na direção do som e correu, precisava descobrir onde estava, quando estava e o mais importante onde estava o maldito Fang Lee que caçava, só conseguiria sair daquela prisão temporal com ele, não é mesmo?
Correu o mais rápido que podia. Gritos e tiros podiam ser ouvidos mais e mais altos conforme se aproximava cada vez mais do local em questão, virou o corredor duas, três, cinco vezes ou mais até se deparar com um grande pátio em total processo de destruição.
Lá estava Fang Lee.
Seus cabelos mais compridos do que a última vez que o vira, uma barba rala e cinza crescendo em seu rosto achatado e vestia-se de forma diferente também, um sobretudo negro surrado e camisa vermelha, fora isso, ainda era o mesmo canalha insano.
O inovador na cena não era Lee, mas sim o que caçava Lee.
Lá estava o que em sua concepção poderia ser chamado de trator, caminhão, monstro, van do Scooby-Doo, caminhonete dos Caça-fantasmas e se bobeasse, poderia chamar até mesmo de mini King Kong.
Mas era um robô.
Certamente era um robô.
E não qualquer tipo de robô, não do tipo que vira minutos atrás no salão branco. Este estava armado, este queria destruir e aparentemente o alvo era Lee, ou quem sabe, todo o prédio já que ele atirava com suas metralhadoras e lasers por todas as direções possíveis.
Não havia mais nada intacto ali.
As vidraças que antes deveriam ser imponentes e dar à construção um ar intelectual e social estavam quebradas e espalhadas em vários cacos sob o chão cheio de rachaduras e estilhaços de madeira e tijolos.
Seja lá quanto tempo fora perdido entre a viagem de Lee e a sua, J sabia que algo muito errado estava acontecendo ali, mas que afinal de contas, estava do lado do robô.
O agente desceu correndo as escadas que antes deveriam funcionar com eletricidade e que agora não passavam de sujeira, saltou alguns degraus semi destruídos e acabou ali, cara a cara com a luta, sendo um alvo fácil para o robô, corria, esquivando-se dos tiros, dos objetos que voavam em sua direção, corria tentando alcançar Lee.
De qualquer maneira não poderia deixá-lo ser morto, poderia? Se voltasse de mãos abanando quem sabe o que aconteceria com o destino da humanidade? Destino, palavra estranha, nem fazia parecer que ainda existia o livre arbítrio.
Sacou sua arma depressa e mirou no robô, atingindo uma de suas várias ferragens, o que incrivelmente não surtiu efeito algum no brutamonte. Notou que Lee já estava ferido, precisava rendê-lo e tirá-lo dali o quanto antes.
-Sequência de auto-destruição iniciada, eliminação total de alvos em 10, - J levou a mão até a testa ao ouvir a voz feminina automatizada soar do monte de ferro ambulante, sério? Ferindo o robô, se iniciava a auto-destruição? Se sentia em um maldito episódio de Battlestar Galactica ou um filme de ficção cientifica os quais nunca tivera muita paciência de assistir, não gostava de pensar, era mais de agir.
-Lee precisamos sair daqui! –gritou correndo em direção as portas de vidro quebradas, - Ele vai explodir tudo!
-5...
-Anda! – gritou de novo, passando pelo buraco depressa e chamando o chinês lunático do lado de fora com a mão. – Corra!
-3...
Lee não se deu ao luxo de responder, apenas obedeceu o melhor que pôde não sendo muito eficaz em sua execução de tarefa. J protegeu-se encolhendo o corpo após correr poucos passos e cobrindo a cabeça, tudo fora ao chão em uma explosão sem igual.
A pressão do ar fora tanta que os estilhaços de vidro voaram em sua direção, seus ouvidos estavam tampados e a poeira subira como névoa ao ar.
Em questão de dez segundos, um prédio inteiro havia ruído.
E Lee ruíra com ele.
Minutos após, J se ergueu dos escombros, sacudiu a poeira do corpo e deu três lances de passos a frente, passou por cima de alguns pedaços grandes de cimento, concreto e o que mais que fosse que explodira junto ao robô. Sua busca levou algum tempo até que encontrasse o corpo quase todo omitido por pedras, de Lee.
-E então Lee, vai me dizer qual é a profecia antes de morrer? Não acha que isso tudo que fez, não levou a nada? Te persegui do velho oeste até aqui, e pra quê? Pra te ver morrer diante dos meus olhos? – agachou-se, seus olhos negros encarando os cortados sujos de sangue.
-Você... –Lee tossiu, respirava com dificuldade, seu corpo havia sido amassado no processo, era impossível sobreviver àquele tipo de coisa. – Você nunca vai parar a profecia, me assegurei disso ao morrer aqui. Eu era o único que poderia parar a transmissão de dados intergalácticos que passava toda a história da humanidade ao Grande G. Quando voltar ao seu tempo, não poderá fazer nada além de morrer. Entenda... –Tossiu novamente, a voz falhando e definhando mais a cada palavra dita. – Meu objetivo foi cumprido e assim que eu morrer... Você será enviado novamente à morte.
-É o que? Isso tudo foi um jogo pra você? Fugiu pra condenar a humanidade, é isso mesmo? Escuta aqui japonês, se você pensa que tudo acaba assim, saiba que... –J arregalou os olhos, seu corpo estava sendo envolvido por uma luz azul, Lee estava morto e ele finalmente estava sendo enviado de volta para seu tempo.
Sim, tudo havia acabado como o planejado pelo insano Doutor Loveless, ou melhor, Fang Lee.

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“Bem-Aventurados aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as coisas nela escritas, pois o Tempo está próximo.”
Apocalipse 1:3 

J pensou que não conseguiria se assustar com mais nada que visse em sua vida desde a entrada na MIB. Presenciara o nascimento e a morte dos mais bizarros aliens, inclusive algo que não se orgulhava, vira até mesmo o coito de alguns. Robôs, naves, monstros de todos os tipos inimagináveis pela graça da humanidade e ainda assim existentes nesse universo tão gigantesco e surreal.
Mas lá estava uma cena que acreditou que nunca presenciaria na vida.
O apocalipse.
New York não era nem de longe o que um dia fora. J estava no terraço de um prédio isolado, não muito distante da sede da MIB. Era dia e tudo o que conseguia entender era que o pior já havia acontecido.
Os prédios antes tão vivos, arranha-céus belíssimos, agora não passavam de uma piada suja de um universo distópico onde tudo não passava de destruição e dor.  Era tudo cinza, o sol parecia não ter mais cor. Os carros novos e velhos, quebrados, abandonados nas ruas juntamente de motos e demais veículos, jornais, papéis, roupas, tudo jogado como se uma guerra de gangues do Warriors tivesse tomado conta de toda a cidade.
J chutou a porta do terraço e desceu correndo as escadas do prédio no completo breu, parecia que desde seu encontro com o alien no oceano, seu dia a dia se tornara correr. Sentia novamente a ferida na perna pinicar e arder, o que indicava estar no tempo certo.
Passou pelas ruas solitárias e vazias, mortas, com pressa, até chegar onde geralmente entrava para ter acesso ao universo dos Homens de Preto e lá encontrou tudo tão morto quanto a cidade.
-Não pode ser... Isso não está acontecendo. –Desesperava-se, atônito e assustado. A humanidade não poderia ter se extinguido daquela forma.
Após alguma insistência entrou na sede e se deparou com apenas um, um único verme, sentado sob uma bancada de mármore quebrada, o chão antes lustroso agora lotado de folhas secas e sujeira.
-Verme? –chamou, notando-o assustando e vendo-o correr de si. –Verme sou eu, J! Volte aqui!
-J? – a criaturinha amarela parou, virando-se e correndo até ele, jogou-se em suas pernas abraçando-o com seus vários braços. –J, onde esteve? Não pensamos que sua viagem no tempo demoraria tanto! O mundo praticamente acabou.
E assim o Verme restante explicou, detalhe por detalhe enquanto o sol tomava seu rumo no horizonte, cada vez mais distante, o que ocorrera na terra.
O Grande G descera até o planeta humanóide, espalhando nele um vírus que transformava as pessoas em uma espécie de zumbi ou vampiro, eles se tornavam extremamente brancos, com veias saltadas na pele rachada e lisa, carecas e com uma fraqueza incontrolável a luz do sol.
Humano por humano havia sucumbido ao vírus, o pouco de consciência restante em cada um era reservada para os já transformados. Sobreviver se tornara um verdadeiro desafio.
Boa parte dos aliens havia abandonado o planeta àquela altura do campeonato, não fazia sentido em viver em um local morto e perigoso como aquele onde, a vida não mais brotava, onde tudo se resumia em sussurros de fantasmas do passado, um passado onde a humanidade ainda tinha esperança.
-Mas sabe, existe uma forma de acabar isso. Vê esse amuleto que tanto te ajudou a viajar pelos confins do tempo? Dentro dessa lua existe um elixir capaz de matar o Grande G, o último de sua raça, aquele que perpetua o vírus. Você precisa fazer com que este colar entre em contato com a pele dele, precisa que o líquido escorra por ele, J. Se existir algum humano vivo, algum humano cuja existência não foi totalmente tomada pelo vírus, ele viverá sem problemas, podendo dar continuidade na sua raça. Mas... Não sei se você conseguirá sair vivo dessa, meu chapa.
MIB havia feito experiências com as criaturas antes que os próprios humanos da organização também sucumbissem ao vírus e nada fora capaz de detê-lo ou aplacar seu efeito.
Verme explicou ainda que J deveria ir até a caverna onde o Grande G se escondia, ele residia lá sozinho e J teria que fazer isso antes do pôr-do-sol, as criaturas não ousavam se aproximar da caverna do demônio, o agente precisaria fazer isso.
E rápido.
E assim J o fez. Com uma moto chegou até a caverna próxima a praia, entrou dentro dela e tomou fôlego.
-G! Sei que está aqui, venha até mim. Eu sou o escolhido! – tinha sua arma de prontidão, preparada para atirar, mal conseguiu ver o que corria em sua direção, atirou quatro ou cinco vezes em um vulto rápido e tudo o que pôde ouvir foi um rosnado animalesco. –Eu sou o escolhido e provavelmente ultimo humano na terra, não quer me destruir? Pare de fugir e venha até mim!
Com um golpe forte J foi jogado contra a parede áspera da rocha e sentiu uma costela dentro de si reclamar de dor, arfou de dor. –Merda! Me encare! Olhe pra mim, seu bosta! – gritou novamente e seu desejo foi obedecido.
Lá estava, respirado seu hálito de podridão e morte, baforando contra seu rosto a criatura sem nariz e olhos fundos, era careca e seco, esguio, tinha a pele tão branca quanto papel e veias saltadas pelos braços e pescoço.
-Se eu morrer, você morre junto, seu merda! –urrou puxando-o contra si e rolando pelo chão da caverna se certificou de prender o colar ao pescoço do monstro, quebrando-o com as próprias mãos e se cortando no processo.
Sentiu quando os dentes afiados da criatura rasgaram seu pescoço, arrancando um bom pedaço dali e fazendo o sangue quente escorrer, em seguida, caindo ao seu lado enquanto se desfazia em agonia, contorcendo seu corpo nojento no musgo.
-Eu disse... Eu morro... Mas eu te mato junto. – J caiu ao seu lado, segurando a ferida no pescoço, deixou os olhos se fecharem devagar, podia sentir os dedos formigando e um frio tomando conta de seu ser.
Agora um sermão de K cairia bem.
Sorriu, um sorriso miúdo e satisfeito e se deixou levar pelos braços gentis e carinhosos da morte.

Ator:
Will Smith
Filmes:
-MIB
-O Espanta Tubarões: Citação.
-As Loucas Aventuras de James West
-Eu, Robô
-Eu sou a Lenda


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